Segunda noite do EncontrArte

Por: Carlos
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Segunda noite do EncontrArte movimenta espaços alternativos em Nova Iguaçu

Este ano o EncontrArte traz como diferencial a ocupação de salas de espetáculos populares

 

Para a segunda noite do XIV Encontro de Teatro da Baixada Fluminense – EncontrArte, foi escolhido um espaço alternativo, onde 178 crianças e adolescentes da Baixada estudam, leem, assistem, respiram teatro diariamente. Foi nesse local vibrante, chamado Sala de Espetáculos Amir Haddad, que fica dentro da ONG Fábrica de Atores e Material Artístico, que estreou a peça – ou melhor, como o próprio diretor dela, Bruno Medsta, gosta de chamar: experimento – “Naquele Instante”. A casa cheia, o público interagindo e uma comemoração no final, com a presença dos idealizadores do EncontrArte Claudina Oliveira, Fábio Mateus e Tiago Costa e do presidente da ONG Alexandre Gomes.

“Este ano estamos com essa proposta de ocupação dos espaços nos quais as pessoas que os administram e as que os frequentam estão sempre lutando para que a cultura continue sendo um fator de transformação social. São pessoas que fazem a diferença, que não esperam que o poder público faça tudo, elas vão lá e fazem acontecer”, afirmou Fábio Mateus. E, completou: “Os espaços culturais, em todas as regiões periféricas, são nossos, do povo, dos que amam cultura. Somos nós que temos que fazer as coisas acontecerem. Porque sem a movimentação popular nada acontece”.

O presidente da Fábrica de Atores e Material Artístico, Alexandre Gomes explica que a ONG já atua há 14 anos na Baixada Fluminense e que os próprios alunos tiveram a iniciativa de construir a Sala de Espetáculos Amir Haddad. “Aqui apresentamos espetáculos semanalmente para a toda a população, além de oferecer os cursos. Somos como uma comunidade, os próprios alunos fazem campanhas para arrecadar dinheiro para a escola, fazem cantina, vamos trabalhando em parceria, pois amamos este lugar. Nosso trabalho é ideológico, queremos propagar a cultura na Baixada Fluminense”, conta Gomes.

Ítalo Barbosa, de 20 anos, é um dos alunos da ONG. “Há dois anos passei aqui em frente e pedi informações sobre o curso. Levei o papel para casa. Mas não pude começar a estudar teatro porque meus pais não aceitaram. Mas aí, de uns seis meses para cá eu me rebelei. Agora estudo teatro e sou muito feliz. Aqui eles me aceitam como sou, me acolhem, são como uma família para mim”, afirmou o jovem.

Bruna Bell, de 36 anos, também faz curso na ONG e trabalha com teatro há quatro anos. “Antes de vir estudar aqui, eu não conhecia muito bem teatro. Queria ser atriz só para ser famosa. Mas agora esse não é mais o meu foco. Teatro não tem nada a ver com novela. O teatro ajuda o meu psicológico, minha autoestima, faz de mim uma pessoa melhor”, revelou.

Lucimar Carvalho, de 30 anos, também moradora de Nova Iguaçu, assim como ítalo e Bruna, foi à Sala de Espetáculos Amir Haddad pela primeira vez na noite de ontem. “Eu já tinha ouvido falar do EncontrArte e desta sala, mas nunca tinha vindo. Vou a muitos espetáculos, só que no Rio, onde trabalho. Porém, hoje o meu filho, que começou a estudar aqui há pouco tempo, me convenceu a vir. Gostei muito. Virei mais vezes, com certeza”, disse. Erom, de 17 anos, não pode comparecer.

Experiência artística – O experimento ou experiência artística “Naquele Instante” é da Cia. Código de Artes Cênicas, de Japeri. São quatro atores em cena, dividindo um espaço comum no qual tomam café, comem biscoito e compartilham fotografias de suas infâncias. Nesse local, eles conversam sobre experiências que tiveram em suas infâncias e adolescências, algumas engraçadas e outras traumáticas. Tudo com muita naturalidade, como um bate-papo.

“Não é um espetáculo, é um trabalho, uma experiência, um experimento. Nós tentamos trazer o público para perto de nós e para dentro de si mesmo, através do resgate de memórias da infância e adolescência. Quem nos assiste também vai acabar buscando suas próprias memórias. É assim que poderemos entender quem somos hoje”, explica Bruno Medsta.

Além de ser uma companhia de teatro, o Código também abriga uma escola teatral, com cursos gratuitos para a população de Japeri. “Tudo começou quando íamos ensaiar e a garotada ficava pendurada no muro para assistir. Percebemos que existia uma vontade enorme por parte daquelas crianças de participar. Entendemos que dar essa possibilidade para elas seria mais que a realização de um desejo nosso, seria uma postura de possibilitar uma importante inclusão social”, afirma o diretor da companhia.  

Homenagem à Marieta Severo – A abertura do EncontrArte realizada na noite de quarta-feira, dia 23, foi no Sesc de Nova Iguaçu e homenageou a atriz Marieta Severo, que compareceu junto ao marido Aderbal Freire Filho. Também foram homenageados o ator e cantor iguaçuano Ludoviko Vianna e o mestre Martins Pena, fundador da comédia de costumes, morto em 1848.

A cerimônia de abertura também contou com a presença do secretário de Cultura de Nova Iguaçu, Wagner D Almeida, representando o prefeito Nelson Bornier; da coordenadora geral da Superintendência de Artes da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Sassá Samico, representando a secretária Eva Doris Rosenthal e da gerente de patrocínio da Petrobras, Regina Studart.

“A região da Baixada Fluminense é um celeiro de artistas. Porém, nossa região muitas vezes é esquecida ou ocultada. Por isso, é muito importante que o EncontrArte permaneça”, afirmou Wagner D Almeida.

O presidente e o diretor do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (SATED-RJ), Jorge Coutinho e Déo Garcez também estiveram presentes. “Eu me sinto um iguaçuano. Embora seja carioca, de São Cistovam, estou sempre por aqui, há muitos espetáculos de qualidade acontecendo nesta cidade. Vida longa ao EncontrArte!”, comemorou Jorge Coutinho.

Já o diretor do SATED-RJ, conta que esta é a primeira vez que ele participa do EncontrArte. “Já tinha ouvido muito falar do festival, mas só desta vez estou tendo essa oportunidade. Estou encantado com esse encontro da arte, no qual são apresentados tantos talentos e ainda por cima valoriza essa região, que é tão importante para o Rio de Janeiro. Espero voltar muitas vezes. Arte para mim é fundamental, modifica o ser humano e a sociedade”, concluiu Déo Gracez.   

Para o superintendente de Programas Sociais do Sesc Rio, Marcos Henrique Rego, o EncontrArte tem tudo a ver com o Sesc: “A nossa entidade está promovendo o bem-estar e a inclusão social em uma região de extrema importância para o estado do Rio de Janeiro. Receber o EncontrArte na nossa casa é uma honra. Acreditamos no poder transformador da arte e ser uma vitrine para o que está acontecendo na nossa sociedade nos motiva”, explicou.

O gerente do Sesc de Nova Iguaçu, Fábio Machado, se define como um incentivador do EncontrArte. “Essa dinâmica, essa energia de fazer, acontecer é muito importante principalmente aqui na Baixada. É interessante poder estar junto. A cada ano vai fortalecendo mais e a evolução na qualidade do festival é explícita. A força e a empolgação das pessoas que fazem este festival acontecer nos encanta. Sou um grande incentivador deste festival”, disse.

Logo após a cerimônia, foi apresentado o espetáculo “Samba Futebol Clube”, abrindo os trabalhos teatrais deste XIV EncontrArte.

Continua a programação – Hoje à noite teremos o espetáculo “Levando a Vida no Cabelo”, da atriz Mariah da Penha, às 20h, no Laboratório Cultural – Rua Rainha Elizabeth, 188, Califórnia. Trata-se de uma performance voltada para a estética do cabelo crespo e que aborda diversidades culturais.

Mais informações: encontrarte.com.br.

Fotos: Marcele Pontes

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